Naquela época existia o medo de que as mulheres pudessem provocar reações encontradas com os homens, então argumentavam que o voto feminino representava um perigo para a República.

“Se somos todos iguais, por que negar o direito ao voto às mulheres?” perguntou Clara Campoamor, advogada madrilena, deputada do Partido Radical e porta-estandarte do movimento sufragista feminino.

Clara Campoamor

“Resolved lo que queráis, pero afrontando la responsabilidad de dar entrada a esa mitad de género humano en política, para que la política sea cosa de dos, porque solo hay una cosa que hace un sexo solo: alumbrar; las demás las hacemos todos en común, y no podéis venir aquí vosotros a legislar , a votar impuestos, a dictar deberes, a legislar sobre la raza humana, sobre la mujer y sobre el hijo, aislados, fuera de nosotras.” – Clara Campoamor

Após anos de intensa luta, o Parlamento Republicano espanhol aprovou uma emenda constitucional que reconhecia o direito ao sufrágio às mulheres em outubro de 1931, porém elas tiveram que esperar até 19 de novembro de 1933 para poder votar. No Brasil as mulheres também puderam votar por primeira vez no ano 1933, 6 meses antes, em 3 de maio.

Apesar de ter sido um passo importante, a verdade é que nem todas as mulheres votaram, já que a emenda aprovada em 1931 dizia que “cidadãos do sexo masculino desde o 23 anos e mulheres desde os 45 terão os mesmos direitos eleitorais”. Mesmo assim, 6.800.000 espanholas votaram por primeira vez e puderam escolher livremente seus representantes. Nas eleições daquele ano saíram cinco mulheres deputadas eleitas.

Clara Campoamor

Clara Campoamor foi considerada representante do que a literatura da época e ela mesma denominou de “mulher moderna” ou “nova mulher”, alguém que rompeu com atavismos arcaicos e era parte de um imenso número de mulheres que desde o século XIX vinha tentado romper a densa rede de preconceitos, costumes e leis que as colocavam as mulheres ao margem da vida social. Basta ver a série espanhola Las chicas del Cable de Netflix  para ter uma ideia o que era a Espanha naquela época e as mudanças sociais que as mulheres enfrentavam com temas relacionados com o direito ao voto, a liberdade sexual e as dificuldades em conciliar a vida laboral e vida familiar refletidos na série.

Voto das mulheres espanholas

Após esta votação histórica de 1933 as mulheres só puderam votar novamente em 1936, onde meses mais tarde chegaria o golpe de Estado, a Guerra Civil e posterior, 40 anos de ditadura que aboliram o voto livre à todos os espanhóis , aos quais não puderam voltar a votar até o ano de 1977, após a morte de Francisco Franco.

De lá pra cá através do voto as mulheres estão conseguindo cada vez mais entrar na politica. No atual governo de Pedro Sanchez dos 17 ministérios existentes 11 ministérios estão sendo administrados por ministras.  Já no parlamento há um 40% de mulheres parlamentarias e as duas cidades mais populosas do país, Barcelona e Madrid, estão sendo governadas por mulheres, Ada Colau e Manuela Carmena.

Neste fim de semana, domingo 28 de abril  se realizará as eleições gerais para presidente da Espanha. Tomando em conta o auge do movimento feminista alguns partidos converteram a luta das mulheres como tema central de suas campanhas e o voto feminino pode ser a clave para inclinar a balança à direita ou à esquerda. Temas como desigualdade laboral, violência de gênero, o tráfico de mulheres, medidas para regular a prostituição, a maternidade de substituição foram incluídos nos planos de governo dos partidos PP e PSOE.

Não sabemos o que irá passar, quem irá ganhar, quem será o próximo presidente do governo da Espanha, o que está claro é que uma vez mais será um homem. Até quando?

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