Sei que existe luz no final do túnel, apesar dos pesares…

Sou Maria Carolina , vivo na Espanha há mais de 10 anos.  Antes de morar aqui, vim algumas vezes a Espanha e a minha visão era igual a de muitos brasileiros que vem de visita. Um país que faz parte da Europa, primeiro mundo, com uma grande parte da população na faixa da classe média.

Enfim, com uma vida digna. Tudo isso é quase uma verdade, não posso negar. Mas aqui também existe a pobreza. Agora, com os tempos que virão, sinto dizer que vai aumentar. 

O governo, através dos serviços sociais das prefeituras, dão algumas ajudas. Também existem várias ONGs que colaboram com alimentos, saúde, apoio psicológico ou  legal.

As mais importantes são Cáritas e Cruz Vermelha, uma ligada a Igreja Católica e a outra é uma entidade com um movimento independente, respectivamente. Cada vez, estas organizações têm um maior peso dentro da sociedade espanhola, inclusive os assistentes sociais do serviço público  solicitam apoio a estas ONGs para dar resposta a casos que o governo não tem solução. E não são poucos.

Sou voluntária de Cáritas, desde 2010, praticamente quando começou uma crise econômica aqui na Espanha. O meu trabalho voluntario consistia em ajudar as pessoas em busca de trabalho, através de motivação e/ou técnicas de comunicação (Simulação de entrevistas).

Desde então, escutei várias histórias pessoais como falta de casa e/ou comida até problemas com prisão, drogas e delinquência. Alguns dias foram tão pesados que me tiravam a fome, o sono, a vontade de sorrir, a esperança.

Nos últimos dois anos, a vida começava a melhorar. A economia parecia que estava reagindo. Voltava a surgir pequenas e médias empresas, um dos pilares da economia espanhola. Parecia que o setor da construção, outro pilar forte daqui,  se recuperava. Havia contratação de pessoal, apareciam novas oportunidades de trabalho. Enfim, alguns raios solares começava a aparecer no céu.

Dentro do meu voluntariado, o perfil das pessoas mudou e com elas, suas histórias. O trabalho era o mesmo, mas com  imigrantes que tinham pouco tempo aqui no país. Durante este período, quase todos que conheci, conseguiram trabalhos temporários e arrancar com a vida. 

Agora estamos em Quarentena pelo COVID19. O meu voluntariado mudou. Teléfono às famílias carentes, atendidas por Cáritas, para conhecer as suas necessidades e não deixar que o desânimo tome conta da situação. Falo com uma família por dia, porque o meu coração não pode mais. Elas desabafam pelo telefone. Falta espaço para todos, falta comida, falta remédios, falta família, falta muita coisa. É duro, nunca pensei que encontraria isso na Espanha, país europeu, país rico.  

Agora, tenho medo. Muito medo. Medo de voltar à crise que conheci. Medo de voltar a não dormir, pensando nas famílias que imigraram para cá com um sonho de uma vida melhor e encontram uma realidade de pobreza, fome, etc.

Fecho os olhos e escuto aquela frase  mais que batida, “A esperança é a última que morre”. É com ela, eu imagino o dia post isolamento.

Neste dia, pessoal, ninguém me segura. Vou abrir os olhos e gritar :

 “BORA, PULAR DA CAMA E RECONSTRUIR ESTE PAÍS QUE TANTO AMO.”

 Sei que existe luz no final do túnel, apesar dos pesares …

Maria Carolina
Maria Carolina

Maria Carolina é psicopedagoga, formada na Espanha pela UNED e com um mestrado em psicología Educativa. Pós-graduada em Coaching, PNL e Inteligência Emocional.

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1 Comment

  • Claudia Bessa 19 abril, 2020

    Vejo a realidade nas suas palavras, mas elevo os meus pensamentos buscando calmar meu coração de q tudo, mesmo devagar e com uma marca enorme no Curriculum da nossa vida, mas que iremos conseguir vencer.

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